29 maio 2011

Além-mundos


Imagens da exposição: O Mundo Mágico de Escher - CCBB-SP


"Um dia, Zaratustra também elevou a sua ilusão mais além da vida dos homens, à maneira de todos os que crêem em além-mundos.
Obra de um deus dolente e atormentado me parecia então o mundo.

Sonho me parecia, e ficção de um deus: vapor colorido ante os olhos de um divino descontente.
Bem e mal, alegria e desgosto, eu e tu, vapor colorido me parecia tudo isso ante os olhos criadores. O criador quis desviar de si mesmo o olhar... e criou o mundo.
Para quem sofre, é uma alegria inebriante desviar o olhar de seu sofrimento e esquecer de si mesmo. Alegria inebriante e esquecimento de si mesmo me pareceu um dia o mundo.
Este mundo, o eternamente imperfeito, me pareceu um dia imagem, e imagem imperfeita, de uma eterna contradição, e uma alegria inebriante para o seu imperfeito criador.
Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos homens, à maneira de todos os que crêem em além-mundos. Além dos homens, realmente? Ai! meus irmãos! Este deus que eu criei era obra humana e humano delírio, igual a todos os deuses.

Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das minhas próprias cinzas e da minha própria chama, e na verdade nunca veio do outro mundo.
Que ocorreu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza para a montanha; inventei para mim uma chama mais clara. E vede! O fantasma ausentou-se!

Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas: seria um sofrimento e uma humilhação. Assim falo eu aos que crêem em além-mundos.
Sofrimento e impotência: eis o que criou todos os além-mundos, e este breve delírio da felicidade que só conhece quem mais sofre.
A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, um salto mortal; uma fadiga pobre e ignorante, relutante em querer algo mais; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos.

Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou do corpo: tateou com os dedos do espírito transtornado as últimas paredes.
Creiam-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou da terra: ouviu falar as entranhas do ser.
Quis então que sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: ele mesmo quis passar para o 'outro mundo'. O 'outro mundo', porém, esse mundo desumanizado e inumano, que é um nada celeste, está oculto aos homens, e as entranhas do ser não falam ao homem, a não ser como homem.
É realmente difícil demonstrar todo ser, e difícil é fazê-lo falar. Dizei-me porém, irmãos: a mais estranha de todas as coisas não será a melhor demonstrada?
E este Eu que cria, que quer, e que dá a medida e o valor  das coisas, este Eu, e a contradição e confusão do Eu, falam com a maior lealdade do ser.
E este lealíssimo, o Eu, fala do corpo, e quer o corpo, embora sonhe e divague e esvoace com as asas partidas.
O Eu aprende a falar cada vez mais lealmente, e, quanto mais aprende, mais palavras acha para honrar o corpo e a terra."

Trecho do livro "Assim Falou Zaratustra" de Friedrich Nietzsche - Editora Martin Claret, 1999, pg 41 e 42

22 abril 2011

Todos os olhos

   
 
Todos os olhos - Capa do LP do Tom Zé

"...Não resta dúvida de que o mundo de hoje pôs nas mãos das pessoas novos recursos tecnológicos, meios outros de comunicação e criação de formas, tanto no espaço como no tempo, e tudo isso gera novas possibilidades de inventar mensagens e imagens inusitadas..."



Vik Muniz. Narciso (baseado em Caravaggio), 2006


"... É natural, portanto, que os artistas se sintam tentados a abandonar as técnicas de expressão tradicionais e busquem criar, com os novos meios, um inesperado universo de relacionamentos semânticos..."



Marcel Duchamp. Fonte, 1917
"... Essas novas experimentações diferem, no entanto, de outras que, de fato, visam negar a arte mais do que propor novos caminhos. Por exemplo, Marcel Duchamp, ao eleger um urinol como obra de arte, está afirmando que o objeto dito artístico pode ser feito sem o propósito de produzir arte... "
*Aí reside o xis da questão. Folha de S.Paulo, 06/03/2011. Ferreira Gullar


“as inserções em circuitos ideológicos tinham essa presunção: fazer o caminho inverso ao dos readymades. Não mais o objeto industrial colocado no lugar do objeto de arte, mas o objeto de arte atuando no universo industrial”. 
Cildo Meirelles


Na noite do dia 24 de outubro de 1975, o jornalista apresentou-se na sede do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/ Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, para prestar esclarecimentos sobre suas ligações com o PCB (Partido Comunista Brasileiro). No dia seguinte, foi morto aos 38 anos.
Segundo a versão oficial da época, ele teria se enforcado com o cinto do macacão de presidiário. Porém, de acordo com os testemunhos de Jorge Benigno Jathay Duque Estrada e Rodolfo Konder, jornalistas presos na mesma época no DOI/CODI, Vladimir foi assassinado sob torturas.
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u95.jhtm

Yankees go home! -  Cildo Meireles - 1970


Grupo Poro

31 março 2011

31 de março de 2011




Enterro de Vladmir Herzog

    Os herdeiros da parcela brasileira que apoiou a possibilidade de um golpe militar no Brasil naqueles idos de 1963/64, hoje estão assistindo ao Big Brother Brasil. São desinformações como essa que geram a ilusão de que o golpe militar teve apoio popular. Tudo não passou de uma grande enganação. E quando ficou claro que a ditadura era pra valer, a população passou a ter consciência do que estava acontecendo e reagiu. Os militares não saíram do poder porque estava tudo assegurado, mas porque eles perderam a moral, política, legal, ética etc. Eles ainda tinham força física, mas não tinham legitimidade e nem mesmo forças pra enfrentar a situação. Sair com as armas em punho para enfrentar estudantes, trabalhadores, homens e mulheres civis desarmados deixou-os sem saída. Ou matavam todos ou renunciavam. Esta foi a grande conquista do povo brasileiro! Eu também estava lá e encarei muitos militares armados e até hoje eu me pergunto de onde veio a coragem para enfrentar homens armados quando se está de mãos vazias. E a resposta que eu encontro é sempre a mesma. A dignidade humana desmonta qualquer armamento bélico. Quando você precisa de armas para conter um povo e mesmo assim não consegue detê-lo, não adianta mais matar porque sempre haverá alguém para substituir os mortos. Então, a abertura política no Brasil foi uma grande conquista de um povo, cuja juventude não tem idéia do que se passou. Em nossas escolas de hoje em dia, tudo é ensinado como se fosse um filme de ficção científica. Mas lembrar é muito importante. E não deixar que alguns cidadãos desrespeitem os direitos dos outros é muito mais importante, pois amanhã eles estarão tentando tirar o direito de todos, como aconteceu no passado. Hoje nós vivemos uma democracia que pode ter diversos defeitos mas tem enormes virtudes. Não é em qualquer país que um tabalhador pode chegar à presidência. Eu não estou defendendo o ex-presidente, mas o princípio político que o permitiu chegar ao poder. Isto não nos foi dado. Foi conquistado com muita luta, suor e sangue!

Walter Miranda
Vladimir Herzog Notebook, 2005 - Walter Miranda
“... O mundo hoje, como um todo, é mais primitivo do que há cinquenta anos. Algumas áreas atrasadas progrediram e vários dispositivos foram desenvolvidos, sempre de alguma maneira relacionados à guerra e à espionagem policial, mas a experimentação e a invenção praticamente deixaram de existir, e os estragos causados pela guerra atômica da década de 1950 jamais foram inteiramente reparados. Contudo os perigos inerentes à máquina continuam existindo. Assim que ela surgiu, ficou claro para todas as mentes pensantes que os homens já não seriam obrigados a trabalhar - e que, como consequência, em grande medida a desigualdade entre eles também desapareceria. Se a máquina fosse usada deliberadamente para esse fim, a fome, o trabalho duro, a sujeira, o analfabetismo e a doença desapareceriam em poucas gerações. E de fato, mesmo sem ser usada com tais objetivos, mas como uma espécie de processo automático - pelo fato de produzir riqueza que em certos casos era impossível deixar de distribuir -, a máquina elevou enormemente o padrão de vida do ser humano médio num período de cerca de cinquenta anos, entre o fim do século XIX e início do XX.
1984- Estigma de George Orwell VI, 1983 - Walter Miranda
                Mas também ficou claro que o aumento global da riqueza talvez significasse a destruição - na verdade em certo sentido foi a destruição - da sociedade hierárquica. Num mundo no qual todos trabalhassem pouco, tivessem o alimento necessário, vivessem numa casa com banheiro e refrigerador e possuíssem carro ou até avião, a forma mais óbvia e talvez mais importante de desigualdade já teria desaparecido. Desde o momento em que se tornasse geral, a riqueza perderia seu caráter distintivo. Claro, era possível imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido de bens e luxos pessoais, fosse distribuída equitativamente, enquanto o poder permanecia nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Na prática porém, uma sociedade desse tipo não poderia permanecer estávelpor muito tempo. Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela. A longo termo, uma sociedade hierárquica só era possível num mundo de pobreza e ignorância.”

1984/ George Orwell - Pg. 225/6- Editora Schwarcz Ltda.





... No topo da pirâmide está o Grande Irmão. O Grande irmão é infalível e todo-poderoso. Todos os sucessos, todas as realizações, todas as vitórias, todas as experiências, científicas, todo o conhecimento, toda a sabedoria, toda a felicidade, toda a virtude seriam um produto direto de sua liderança e inspiração. Ninguém jamais viu o Grande Irmão. Ele é um rosto nos cartazes, uma voz na teletela. Podemos alimentar razoável discussão quanto ao ano em que nasceu. O Grande Irmão é o disfarce escolhido pelo Partido para mostrar-se ao mundo. Sua função é atuar como um ponto focal de amor, medo e reverência, emoções mais facilmente sentidas por um indivíduo do que por uma organização."

1984/ George Orwell - Pg. 245 - Editora Schwarcz Ltda.


27 março 2011

Plus ultra!

"Deus engedrou um ovo, o ovo engedrou a espada, a espada engedrou Davi, Davi engedrou a púrpura, a púrpura engedrou o duque, o duque engedrou o marquês, o marquês engedrou o conde, que sou eu."
Assis, Machado de, 1839-1908 - O Alienista/Machado de Assis - pág. 22 - Editora Komedi 2009



Untitled Work-Joan Miró
 



Ode ao burguês


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o extase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!...  

Paulicéia desvairada (1922) - Mário de Andrade



La rumeur de la terre, 1950 - Wilfredo Lam

"Quanto mais perto ficamos, mais longe ficamos. Quanto mais distante ficamos, mais distantes ficamos mesmo."         José Rosa


Salvador Dalí


"A única diferença entre um louco e eu, é que eu não sou louco."

"A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão."
Machado de Assis


21 março 2011

Mistério Divino



 "Estou dizendo que tudo o que vemos tem um pouco do mistério divino. Podemos ver o brilho desta alguma coisa num girassol ou numa papoula. Percebemos um pouco mais deste insondável mistério numa borboleta que pousou num galho, ou num peixinho dourado que nada no aquário.




 Mas o ponto mais próximo em que nos encontramos de Deus é dentro de nossa própria alma. Só lá é que podemos nos reu-nir com o grande mistério da vida.





De fato, em alguns raros momentos podemos sentir que somos, nós mesmos, este mistério divino.








20 fevereiro 2011

Mão da América


"... Mão espalmada, com dedos abertos em desespero, com um mapa da América Latina a escorrer sangue pelo punho abaixo. Mão que lembra os velhos tempos de luta, pobreza e abandono. Nela, meus amigos, se encontram todos os países do continente. Dos mais ricos aos mais pobres. Dos que, como Cuba, se impuseram corajosamente aos mais poderosos... "


Divina América - Sheila Oliveira

"Embaixo de toneladas arrogantes de concreto a terra pulsa.


Flujo de Libertad - Luis Ricaurte

A cidade impermeável e cauterizada é um deserto de consciência.

Santa Latina! - Cristina Bottallo

O ambiente arde e inunda regurgitando lixo.


Le portrait imbecile - Caciporé Torres

Cada vez mais carregados de tecnologia desaprendemos as lições básicas da Vida.


A Mão de Gaia - Walter Miranda

E, assim, em guerra contra a Natureza o homem vai tecendo a sua história."

18 janeiro 2011

As Intermitências da Morte


"Da primeira reunião da comissão interdisciplinar tudo se pode dizer menos que tenha corrido bem. A culpa, se o pesado termo tem aqui cabimento, teve-a o dramático memorando levado ao governo pelos lares do ocaso, em especial aquela cominatória frase que o rematava, Antes a morte, senhor primeiro-ministro, antes a morte que tal sorte. Quando os filósofos, divididos, como sempre, em pessimistas e optimistas, uns carrancudos, outros risonhos, se dispunham a recomeçar pela milésima vez a cediça disputa, transferida para a questão que ali os chamara, se reduziria no final, com toda a probalidade, a um mero inventário das vantagens ou desvantagens de estar morto ou de viver para sempre, os delegados das religiões apresentaram-se formando uma frente unida comum com a qual aspiravam a estabelecer o debate no único terreno dialéctico que lhes interessava, isto é, a aceitação explícita de que a morte era absolutamente fundamental para a realização do reino de deus e que, portanto, qualquer discussão sobre um futuro sem morte seria não só blasfema como absurda, porquanto teria de pressupor, inevitavelmente, um deus ausente, para não dizer simplesmente desaparecido. Não se tratava de uma atitude nova, o próprio cardeal já havia apontado o dedo ao busílis que significaria esta versão teológica da quadratura do círculo quando, na sua conversação telefónica com o primeiro-ministro, admitiu, ainda que por palavras muito menos claras, que se se acabasse a morte não poderia haver ressurreição, e que se não houvesse ressurreição, então não teria sentido haver igreja. Ora, sendo esta, pública e notoriamente, o único instrumento de lavoura de que deus parecia dispor na terra para lavrar os caminhos que deveriam conduzir ao seu reino, a conclusão óbvia e irrebatível é de que toda a história santa termina inevitavelmente num beco sem saída. Este ácido argumento saiu da boca do mais velho dos filósofos pessimistas, que não ficou por aqui e acrescentou acto contínuo, As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca. Os delegados das religiões não se deram ao incómido de protestar. Pelo contrário, um deles, conceituado integrante do sector católico, disse, Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como a libertação, O paraíso, Paraíso ou inferno, ou cousa nenhuma, o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu, Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta. Durante um minuto ninguém falou. O mais velho dos pessimistas deixou que um vago e suave sorriso se lhe espalhasse na cara e mostrou o ar de quem tinha acabado de ver coroada de êxito uma difícil experiência de laboratório. Sendo assim, interveio um filósofo da ala optimista, porquê vos assusta tanto que a morte tenha acabado, Não sabemos se acabou, sabemos apenas que deixou de matar, não é mesmo, De acordo, mas, uma vez que essa dúvida não está resolvida, mantenho a pergunta, Porque se os seres humanos não morressem tudo passaria a ser permitido, E isso seria mau, perguntou o filósofo velho, Tanto como não permitir nada. Houve um novo silêncio. Aos oito homens sentados ao redor da mesa tinha sido encomendado que reflectissem sobre as consequências de um futuro sem morte e que construíssem a partir dos dados do presente uma previsão plausível das novas questões velhas.


Melhor então seria não fazer nada, disse um dos filósofos optimistas, os problemas do futuro, o futuro que os resolva, O pior é que o futuro é já hoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre outros, os memorandos elaborados pelos chamados lares do feliz ocaso, pelos hospitais, pelas agências funerárias, pelas companhias de seguro, e, salvo o caso destas, que sempre hão-de encontrar maneira de tirar proveito de qualquer situação, há que reconhecer que as perspectivas não se limitam a ser sombrias, são catastróficas, terríveis, excedem em perigos tudo o que a mais delirante imaginação pudesse conceber, Sem pretender ser irónico, o que nas actuais circunstâncias seria péssimo gosto, observou um integrante não menos conceituado do sector protestante, parece-me que esta comissão já nasceu morta, Os lares do feliz ocaso têm razão, antes a morte que tal sorte, disse o porta-voz dos católicos, Que pensam então fazer, perguntou o pessimista mais idoso, além de propor a extinção imediata da comissão, como parece ser o vosso desejo, Por nossa parte, igreja católica, apostólica e romana, organizaremos uma campanha nacional de orações para rogar a deus que providencie o regresso da morte o mais rapidamente possível a fim de poupar a pobre humanidade aos piores horrores, Deus tem autoridade sobre a morte, perguntou um dos optimistas, São as duas caras da mesma moeda, de um lado o rei, do outro a coroa, Sendo assim, talvez tenha sido por ordem de deus que a morte se retirou, A seu tempo conheceremos os motivos desta provação, entretanto vamos pôr os rosários a trabalhar,


Nós faremos o mesmo, refiro-me às orações, claro está, não aos rosários, sorriou o protestante, E também vamos fazer sair à rua em todo o país procissões a pedir a morte, da mesma maneira que já as fazíamos ad petendam pluviam, para pedir chuva, traduziu o católico, A tanto não chegaremos nós, essas procissões nunca fizeram parte das manias que cultivamos, tornou a sorrir o protestante. E nós, perguntou um dos filósofos optimistas em um tom que parecia anunciar o seu próximo ingresso nas fileiras contrárias, que vamos fazer a partir de agora, quando parece que todas as portas se fecharam, Para começar, levantar a sessão, respondeu o mais velho, E depois, Continuar a filosofar, já que nascemos para isso, e ainda que seja sobre o vazio, Para quê, não sei, Então porquê, Porque a filosofia precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos, monsieur de montaigne já tinha dito que filosofar é aprender a morrer."


As Intermitências da morte/José Saramago -  Companhia das Letras, 2005 - pg. 35, 36, 37, 38

05 dezembro 2010

Um sonho fúnebre


Enquanto das covas um sonho fúnebre que a luta vermelha brilha enquanto das faces desconhecidas escorre uma lágrima.....


O céu está azul e a floresta mágica ecoa gargalhadas...


posso ver o guardião do pote de ouro, um gnomo a ser capturado.... e tudo se dissipara...


Ao som da flauta da mãe serpente a verdade a cada um, o vento soprara novamente não espere a neblina passar...


que o dragão alado desenterre os ossos da senhora de toda a magia que um dia cessara com o grau de realidade.


E se tudo não passar de um reflexo e a rainha vermelha nunca existiu? E se estivermos no país dos espelhos, o que aconteceria se o sentido de realidade acabasse?
Insanidade mental?


De fato não sei, não sei se seria um estado niilista ou mesmo apatia apenas o nada....
e a isso inicia-se um grande conceito...

Sonia Alves





27 novembro 2010

Uma Barata Feliz

"É COMUM SE DIZER QUE AS BARATAS sobreviveriam a desastres nucleareas. Isso deveria ter sido levado  mais a sério. Não no sentido comumente explorado pelo cinema B, mas no sentido do profeta Kafka: a besta em nós não está em nosso passado, mas em nosso futuro. E o engano mais comum nessa matéria se dá pelo fato de que o aliado da condição de besta no humano é a sistematização da vida em busca da FELICIDADE PLENA.

Salvador Dalí. Mulher na Janela

Todo mundo já ouviu falar do livro Metamorfose de Kafka, o livro em que o personagem Gregor Samsa amanhece transformado num inseto e morre de depressão na janela. Aliás, janelas são lugares típicos onde morremos à espera de uma redenção que nunca chega. O próprio Kafka volta a essa imagem outras vezes em sua obra.
René Magritte.


Um dos trechos inesquecíveis é quando a jovem barata passeia pela parede do quarto....

Ela parte da formação de qualquer amante da literatura. E mais: o importante na leitura de um livro como esse é como ele faz você ver a barata no seu espelho. Em Kafka, a literaura se realiza quando você vê a barata refletida no espelho. Ao final, a barata Samsa morre de tristeza na janela.
Mas voltando às paredes do quarto. Muitas vezes, em horas de agonia, contemplamos as paredes e o teto de nosso quarto, mergulhados no silêncio da solidão.



No trecho em questão, a jovem barata caminha pelas paredes e pelo teto, deixando uma espécie de gosma marrom produzida por suas infinitas perninhas. Essa mesma gosma a faz capaz de andar de lado e de cabeça para baixo, coisa que, quando humano, Gregor não conseguia fazer. Aí já vemos um dos ganhos de Gregor em virar uma barata.
No mundo melhor que desprezo, as baratas teriam uma passeata anual e direito a direitos humanos porque uma delas foi capaz de se emocionar ao experimentar a nova forma de liberdade presente em suas perninhas e sua gosma marrom.

Suspeitava Kafka, não sem nenhuma razão, que o darwinismo falava de nosso futuro e não de nosso passado. Uma barata feliz pode ser uma opção."

Do livro "Contra um mundo melhor: ensaios do afeto" pag. 46 - de Luiz Felipe Pondé - Editora LeYa

17 novembro 2010

Recitais das coisas belas da vida...

Um dia me disseste que existe um lugar para cada homem
             Mas qualquer lugar que você queira fugir, será sempre igual...

Só mais um campo de batalhas....
O que definir?... o bem e o mal possuem a mesma face

O sangue escorre em tinta de caneta
Para assinarmos uma identidade numérica
Números decompostos....

                              
Esse animal chamado homem carrega consigo o estigma
Se é que exista a verdade... Porque temer em terminar?

Talvez tudo isso seja um belo jardim onde não conseguimos
Enxergar sua beleza

Em meio de uma ilusória guerra entre almas e matéria... caminhamos
Titulados de homens racionais e civilizados...


                             
"Pra não dizer que eu não falei das flores..."

Texto de Sonia Alves

Quando te disseram que existe um lugar para cada homem. Acredite...
Os lugares nunca são iguais, nem os olhares. O que podemos ver talvez seja algo íntimo, que somente nós que olhamos podemos sentir.
Sentir que a tinta de cor vermelha, pode mudar de cor, de cheiro, de sentidos...
O homem comum, talvez seja mais feliz, já que felicidade são momentos e este homem possui mais momentos de inSônia...
Mas buscar momentos felizes é obrigação de qualquer ser, que sente a necessidade de manter viva a esperaça de encontrar seu lugar, o lugar que lhe pertence.