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18 dezembro 2011

Cultura


Etmologicamente falando, é um conceito derivado do de natureza. Um de seus significados originais é" lavoura" ou "cultivo agrícola", o cultivo do que cresce naturalmente.


A palavra cultura se origina do verbo latino colo, que significou morar, ocupar, cultivar, lavrar a terra. Transposto para o passado, o adjetivo cultus era atribuído, na Roma arcaica, ao campo já cultivado, à terra que foi lavrada, não apenas no tempo presente, mas sucessivamente, por várias gerações.

Bosch, Hieronymus - "The Seven Deady Sins", c.1485.
A natureza humana não é exatamente o mesmo que uma plantação de beterrabas, mas, como uma plantação precisa ser cultivada - de modo que, assim como a palavra "cultura" nos tranfere do natural para o espiritual, também sugere uma afinidade entre eles.

Picasso, Pablo -" Les Demoiselles d'Avignon", 1907.

Nós nos assemelhamos à natureza, visto que, como ela, temos de ser moldados à força, mas diferimos dela uma vez que podemos fazer isso a nós mesmos, introduzindo assim no mundo um grau de auto-reflexividade a que o resto da natureza não pode aspirar.
Duchamp, Marcel - "Fountain", 1964 (replica of 1917 original)
São os interesses políticos que, geralmente, governam os culturais, e ao fazer isso definem uma versão particular de humanidade.
Kandinsky, Wassily - "Composition VI", 1913

A cultura como orgânica, assim como a cultura como civilidade, paira indecisamente entre faro e valor. Em um sentido, ela não faz mais do que designar uma forma de vida tradicional...
Mas já que a comunidade, tradição, ter raízes, solidariedade são noções que se supõe que aprovemos,

Valentim, Rubem - "Marco Sincrético da Cultura Afro-brasileira", 1978

ou pelo menos supunha-se até o advento do pós-modernismo, poder-se-ia pensar haver algo positivo na mera existência de uma tal forma de vida.

LAM, Wilfredo - "Les noces", 1947

Ou, melhor dizendo, no simples fato da pluradidade de tais formas. É essa fusão do descritivo e do normativo, conservada tanto de "civilização" quanto do sentido universalista de "cultura", que despontará na nossa própria época sob roupagem de relativismo cultural.



Numa sociedade civil, os indivíduos vivem num estado de antagonismo crônico, impelidos por interesses opostos; mas o Estado é aquele âmbito transcendente no qual essas divisões podem ser harmoniosamente reconciliadas.


Para que isso aconteça, contudo, o Estado já tem que ter estado em atividade na sociedade, e esse processo é o que conhecemos como cultura. A cultura é uma espécie de pedagogia ética que nos torna aptos para a cidadania política ao libertar o eu ideal ou coletivo escondido dentro de cada um de nós, um eu que encontra sua representação suprema no âmbito universal do Estado.
Miranda, Walter - "Idolatria Tecnológica VI", 2008

Se o real contém aquilo que o contradiz, então o termo "cultura" está determinado a olhar em duas direções opostas. A descontrução, que mostra como uma situação acaba forçosamente violando a sua própria lógica justamente na tentativa de aderir a ela, é simplesmente um nome mais recente para essa noção tradicional de crítica imanente. Para os românticos radicais, a arte, a imaginação, a cultura folclórica ou comunidades "primitivas" são sinais de uma energia criativa que deve ser estendida à sociedade política como um todo. Para o marxismo, que surge na esteira do romantismo, ela é uma forma bem menos exaltada de energia criativa, aquela da classe operária, que pode transfigurar a própria ordem social da qual é o produto.


*Trechos do livro: A Ideia de Cultura de Terry Eagleton



20 novembro 2011

Pintura



Walter Miranda

Sempre compreendo o que faço depois que já fiz.
O que sempre faço nem seja uma aplicação de estudos.
É sempre uma descoberta.
Não é nada procurado.
É achado mesmo.
Como se andasse num brejo e desse no sapo.
Acho que é defeito de nascença isso.
 Igual como a gente nascesse de quatro olhares ou de quatro orelhas.




Um dia tentei desenhar as formas da Manhã sem lápis.
Já pensou?
 Por primeiro havia que humanizar a Manhã.
Torná-la biológica.
Fazê-la mulher.
Antesmente eu tentara coisificar as pessoas e humanizar as coisas.
Porém humanizar o tempo!
Uma parte do tempo?
 Era dose.
Entretanto eu tentei.


Ipiranga III - 1997

Pintei sem lápis a Manhã de pernas para o Sol.
 A manhã era mulher e estava de pernas abertas para o Sol.
Na ocasião eu aprendera em Vieira (Padre Antônio, 1604, Lisboa) eu aprendera que as imagens pintadas com palavras eram para se ver de ouvir.
Então seria o caso de se ouvir a frase pra se enxergar a Manhã de pernas abertas?

Idolatria Tecnológica - VI - 2008

Estava humanizada essa beleza de tempo.
 E com os seus passarinhos, e as águas e o Sol a fecundar o trecho.
Arrisquei fazer isso com a Manhã, na cega.
 Depois que meu avô me ensinou que eu pintara a imagem erótica da Manhã.
 Isso fora.

Manoel de Barros - Memórias Inventadas - 2008


31 março 2011

31 de março de 2011




Enterro de Vladmir Herzog

    Os herdeiros da parcela brasileira que apoiou a possibilidade de um golpe militar no Brasil naqueles idos de 1963/64, hoje estão assistindo ao Big Brother Brasil. São desinformações como essa que geram a ilusão de que o golpe militar teve apoio popular. Tudo não passou de uma grande enganação. E quando ficou claro que a ditadura era pra valer, a população passou a ter consciência do que estava acontecendo e reagiu. Os militares não saíram do poder porque estava tudo assegurado, mas porque eles perderam a moral, política, legal, ética etc. Eles ainda tinham força física, mas não tinham legitimidade e nem mesmo forças pra enfrentar a situação. Sair com as armas em punho para enfrentar estudantes, trabalhadores, homens e mulheres civis desarmados deixou-os sem saída. Ou matavam todos ou renunciavam. Esta foi a grande conquista do povo brasileiro! Eu também estava lá e encarei muitos militares armados e até hoje eu me pergunto de onde veio a coragem para enfrentar homens armados quando se está de mãos vazias. E a resposta que eu encontro é sempre a mesma. A dignidade humana desmonta qualquer armamento bélico. Quando você precisa de armas para conter um povo e mesmo assim não consegue detê-lo, não adianta mais matar porque sempre haverá alguém para substituir os mortos. Então, a abertura política no Brasil foi uma grande conquista de um povo, cuja juventude não tem idéia do que se passou. Em nossas escolas de hoje em dia, tudo é ensinado como se fosse um filme de ficção científica. Mas lembrar é muito importante. E não deixar que alguns cidadãos desrespeitem os direitos dos outros é muito mais importante, pois amanhã eles estarão tentando tirar o direito de todos, como aconteceu no passado. Hoje nós vivemos uma democracia que pode ter diversos defeitos mas tem enormes virtudes. Não é em qualquer país que um tabalhador pode chegar à presidência. Eu não estou defendendo o ex-presidente, mas o princípio político que o permitiu chegar ao poder. Isto não nos foi dado. Foi conquistado com muita luta, suor e sangue!

Walter Miranda
Vladimir Herzog Notebook, 2005 - Walter Miranda
“... O mundo hoje, como um todo, é mais primitivo do que há cinquenta anos. Algumas áreas atrasadas progrediram e vários dispositivos foram desenvolvidos, sempre de alguma maneira relacionados à guerra e à espionagem policial, mas a experimentação e a invenção praticamente deixaram de existir, e os estragos causados pela guerra atômica da década de 1950 jamais foram inteiramente reparados. Contudo os perigos inerentes à máquina continuam existindo. Assim que ela surgiu, ficou claro para todas as mentes pensantes que os homens já não seriam obrigados a trabalhar - e que, como consequência, em grande medida a desigualdade entre eles também desapareceria. Se a máquina fosse usada deliberadamente para esse fim, a fome, o trabalho duro, a sujeira, o analfabetismo e a doença desapareceriam em poucas gerações. E de fato, mesmo sem ser usada com tais objetivos, mas como uma espécie de processo automático - pelo fato de produzir riqueza que em certos casos era impossível deixar de distribuir -, a máquina elevou enormemente o padrão de vida do ser humano médio num período de cerca de cinquenta anos, entre o fim do século XIX e início do XX.
1984- Estigma de George Orwell VI, 1983 - Walter Miranda
                Mas também ficou claro que o aumento global da riqueza talvez significasse a destruição - na verdade em certo sentido foi a destruição - da sociedade hierárquica. Num mundo no qual todos trabalhassem pouco, tivessem o alimento necessário, vivessem numa casa com banheiro e refrigerador e possuíssem carro ou até avião, a forma mais óbvia e talvez mais importante de desigualdade já teria desaparecido. Desde o momento em que se tornasse geral, a riqueza perderia seu caráter distintivo. Claro, era possível imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido de bens e luxos pessoais, fosse distribuída equitativamente, enquanto o poder permanecia nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Na prática porém, uma sociedade desse tipo não poderia permanecer estávelpor muito tempo. Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela. A longo termo, uma sociedade hierárquica só era possível num mundo de pobreza e ignorância.”

1984/ George Orwell - Pg. 225/6- Editora Schwarcz Ltda.





... No topo da pirâmide está o Grande Irmão. O Grande irmão é infalível e todo-poderoso. Todos os sucessos, todas as realizações, todas as vitórias, todas as experiências, científicas, todo o conhecimento, toda a sabedoria, toda a felicidade, toda a virtude seriam um produto direto de sua liderança e inspiração. Ninguém jamais viu o Grande Irmão. Ele é um rosto nos cartazes, uma voz na teletela. Podemos alimentar razoável discussão quanto ao ano em que nasceu. O Grande Irmão é o disfarce escolhido pelo Partido para mostrar-se ao mundo. Sua função é atuar como um ponto focal de amor, medo e reverência, emoções mais facilmente sentidas por um indivíduo do que por uma organização."

1984/ George Orwell - Pg. 245 - Editora Schwarcz Ltda.


20 fevereiro 2011

Mão da América


"... Mão espalmada, com dedos abertos em desespero, com um mapa da América Latina a escorrer sangue pelo punho abaixo. Mão que lembra os velhos tempos de luta, pobreza e abandono. Nela, meus amigos, se encontram todos os países do continente. Dos mais ricos aos mais pobres. Dos que, como Cuba, se impuseram corajosamente aos mais poderosos... "


Divina América - Sheila Oliveira

"Embaixo de toneladas arrogantes de concreto a terra pulsa.


Flujo de Libertad - Luis Ricaurte

A cidade impermeável e cauterizada é um deserto de consciência.

Santa Latina! - Cristina Bottallo

O ambiente arde e inunda regurgitando lixo.


Le portrait imbecile - Caciporé Torres

Cada vez mais carregados de tecnologia desaprendemos as lições básicas da Vida.


A Mão de Gaia - Walter Miranda

E, assim, em guerra contra a Natureza o homem vai tecendo a sua história."

12 dezembro 2009

Feliz Ano Velho

Palestra com Walter Miranda

Este foi um ano produtivo, com a criação do Blog como apoio das aulas de Arte. Aqui estão alguns dos melhores momentos de 2009. Estréia do nosso aluno William Damasceno no teatro, com a peça de Oswaldo Montenegro, A Dança dos Signos, do curso de teatro Oficina dos Menestréis:




Melhores trabalhos do projeto Ópera Urbana:











20 junho 2009

Walter Miranda

Você já ouviu falar muito sobre ele. Está na hora de saber o que faz o "lendário" Walter Miranda:



Ele é um artista plástico versátil, dinâmico e irrequieto que está sempre atualizando suas obras a fim de retratar a mudança dos tempos. Quando começou sua carreira, trinta anos atrás, suas obras abordavam o contexto da ditadura militar, assim como das manifestações estudantis, que abriram as portas para a democracia no país, movimento do qual ele também participou ativamente. Prova de contato (foto) A força do argumento e O preço da liberdade são deste período.



Na década de 1980, criou a série Estigma de George Orwell, trabalhos inspirados no livro 1984 do escritor bitânico George Orwell (pra quem não sabe de onde se tirou o nome Big Brother). Totalitarismos, supressão da liberdade, controle sobre o indíviduo sob o olhar do "Grande Irmão" chefe do Estado são os temas do livro e da série de Walter. E, por falar em alienação, ele também produziu a série A Taça não é nossa - o futebol, tema de alienação por excelência no nosso país.


E o que se faz com a liberdade a duras penas conquistada? Os rumos que o século XX haveria de tomar estão bem retratados nas obras do escritor Aldous Huxley e foi inspirado em seu trabalho que Walter produziu a série Admirável Mundo Novo, em 1986. O desequilíbrio, a alienação e o uso da tecnologia são amplamente abordados. Walter começa a utilizar a proporção áurea em seus trabalhos, associados a elementos da natureza, como folhas, terra, areia, sementes etc. À tradicional técnica de pintura à óleo foram incorporadas imagens digitalizadas e vários elementos do cotidiano tecnológico como placas de computador, chips, hds, processadores etc. Seus trabalhos remetem a reflexões acerca da degradação do meio ambiente e do uso consciente da tecnologia.




A partir da década de 1990, com o mundo já transformado na grande "aldeia global", seus trabahos voltaram-se para o planeta, como um todo. O Projeto Seattle: Exaltação à Gaia, de 1996, é um trabalho de envergadura ecológica, enfatizando o respeito pela Natureza, como Mãe-Terra, daí o nome Gaia (personificação da terra entre os gregos antigos). Elementos da natureza estão novamente presentes (como folhas, terra...), as cores são mais vivas e uma bonita plasticidade é agregada com a representação dos bailarinos, outro elemento constante. A inspiração para este trabalho foi a "Carta do cacique Seattle".



Na virada do milênio, a série Admirável Nova Idade Média solidifica o aprimoramento visual das obras, cujo tema é o quotidiano dentro do mundo tecnológico. Admirável Novo Milênio, o trabalho seguinte, explora além do hardware, o software. Com obras elaboradas a partir dos recursos da computação gráfica, Walter sugere um contraponto entre o real e o virtual, ao misturar nas composições elementos reais e formas que só existem no computador. A partir de 2001, o artista se dedica à criação de obras-objeto, como O livro de Gaia. Participa também da exposição coletiva "450 anos de São Paulo" promovida pelo SESC.


A partir de 2007, desenvolveu a série O Estigma do chefe Seattle na qual a Terra é representada pelo próprio globo, num mundo já sem fronteiras. O destino incerto do planeta, mostra que a Terra foi sucateada pelo homem, ao contrário do apelo do velho cacique. Para demonstrar isso, a série emprega sucatas na composição dos quadros como palitos de fósforos, lápis apontados e a própria terra, assim como outros elementos da natureza já presentes em obras anteriores e as placas de computador, sua marca indelével.

Como uma síntese dos trabalhos anteriores, Walter fecha um ciclo, mostrando no que o mundo se transformou desde os tempos da repressão no limiar da abertura democrática. Nada muito diferente do já preconizado por George Orwell ou pelo cacique Seattle: a Terra submetida aos caprichos da sociedade de consumo e o mundo sob o domínio de um único "Big Brother", o capital.

E agora prepare-se para conhecê-lo pessoalmente. Ele também já ouviu falar sobre você