Nós que somos impedidas de ciscar, abrir as asas e alçar pequenos voos, não podemos ser nós mesmas, será que se um dia saírmos daqui nos lembraremos de quem nós somos?
"...Assim, o corpo sem órgãos nunca é o seu, o meu...
Damien Hirst - Adam and Eve exposed, 2004
É sempre um corpo. Ele não é mais projetivo do que regressivo. É uma involução, mas uma involução criativa e sempre contemporânea.
Damien Hirst - Adam and Eve exposed, 2004
Os órgãos se distribuiem sobre o CsO; mas, justamente, eles se distribuem nele independentemente da forma do organismo; as formas tornam-se contingentes, os órgãos não são mais do que intensidades produzidas, fluxos, limiares e gradientes.
Mathew Ronay - Falling... Spilling... Sprauling. 2005 You got to let it go...bro...did i do this because my daddy did it?
"Um" ventre, "um" olho, "uma" boca: Ao artigo indefinido nada falta, ele não é indeterminado ou indiferenciado, mas exprime a pura determinação de intensidade, a diferença intensiva.
Ao artigo indefinido nada falta, ele não é indeterminado ou indiferenciado, mas exprime pura determinação de intensidade, a diferença intensiva. O artigo indefinido é o condutor do desejo. Não se trata absolutamente de um corpo despedaçado, esfacelado, ou de órgãos se corpos (OsC). O CsO é exatamente o contrário. Não há órgãos despedaçados em relação a uma unidade perdida, nem retorno ao indiferenciado em relação a uma totalidade diferenciável.
Damien Hirst - Mother and Child divided, 1993
Existe, isto sim, distribuição das razões intensivas de órgãos, com seus artigos positivos indefinidos, no interior de um coletivo ou de uma multiplicidade, num agenciamento e segundo conexões maquínicas operando sobre um CsO. Logos spermaticos.
Dan Colin - Eu, Jesus e as Crianças, 2001-2003
O erro da psicanálise é o de ter compreendido os fenômenos de corpos sem órgãos como regressões, projeções, fantasmas, em função de uma imagem do corpo. Por isso, ela só percebia o avesso das coisas, substituía um mapa mundial de intensidades por fotos de família, recordações de infância e objetos parciais. Ela nada compreendia acerca do ovo, nem dos artigos indefinidos, nem sobre a contemporaneidade de um meio que não pára de se fazer.
Mike Bouchet - Top Cruise, 2005
O CsO é desejo, é ele e por ele que se deseja. Não somente porque ele é o plano de consistência ou o campo de imanência do desejo; mas inclusive quando cai no vazio da desestratificação brutal, ou bem na proliferação do estrato canceroso, ele permanece desejo. O desejo vai até aí: às vezes desejar seu próprio aniquilamento, às vezes desejar aquilo que tem o poder de aniquilar. Desejo de dinheiro, desejo de exército, de polícia e de Estado, desejo-fascista, inclusive o fascismo é desejo . Há desejo toda vez que há constituição de um CsO numa relação ou em outra. Não é problema de ideologia, mas de pura matéria, fenômeno de matéria física, biológica, psíquica, social ou cósmica."
trecho do livro: MIL PLATÔS - CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA (página 28) de Gilles Deleuze e Félix Guattari
1º lugar no Festival de Vídeo do CEU Sapopemba - Jéssica Moura
"...Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.
- Por que é que você olha tão demoradamente cada pessoa?
Ela corou:
- Não sabia que você estava me observando. Não é por nada que olho: é que eu gosto de ver as pessoas sendo.
Então estranhou-se a si própria e isso parecia levá-la a uma vertigem. É que ela própria, por estranhar-se, estava sendo. Mesmo arriscando que Ulisses percebesse, disse-lhe bem baixo:
- Estou sendo...
- Como? Perguntou ele àquele sussuro de voz de Lóri.
- Nada, não importa.
- Importa sim. Quer fazer o favor de repetir?
Ela se tornou mais humilde, porque já perdera o estranho e encantado momento em que estivera sendo:
- Eu disse para você - Ulisses, estou sendo.
Ele examinou-a e por um momento estranhou-a, aquele rosto familiar de mulher. Ele se estranhou, e entendeu Lóri: ele estava sendo.
Ficaram calados como se os dois pela primeira vez se tivessem encontrado. Estavam sendo.
- Eu também, disse baixo Ulisses.
Ambos sabiam que esse era um grande passo dado na aprendizagem. E não havia perigo de gastar este sentimento com medo de perdê-lo, porque ser era infinito, de um infinito de ondas do mar. Eu estou sendo, dizia a árvore do jardim.
Eu estou sendo, disse a água verde na piscina. Eu estou sendo, disse o mar azul do Mediterrâneo. Eu estou sendo, disse o nosso mar verde traiçoeiro. Eu estou sendo, disse a aranha, e imobilizou a presa com seu veneno. Eu estou sendo, disse uma criança que escorregara nos ladrilhos do chão e gritara assustada: mamãe! Eu estou sendo, disse a mãe que tinha um filho que esgorregava nos ladrilhos que circundavam a piscina. Mas a luz se aquietava para a noite e eles estranharam, a luz crepuscular. Lóri estava fascinada pelo encontro de si mesma, ela se fascinava e quase se hipnotizava.
Ali estavam. Até que a luz que precedia o crepúsculo foi se esgarçando entre penumbras e maiores transparências, e quase ausência, sem que aquela espécie de neutralidade fosse ainda tocada pela escuridão: não parecia crespúsculo e sim o mais imponderável de um amanhecer:
Tudo aquilo era absolutamente impossível, por isso é que Lóri sabia que via. Se fosse o razoável, ela de nada saberia.
E quando tudo começou a ficar inacreditável, a noite desceu.
Trecho do livro: UMA APRENDIZAGEM OU LIVRO DOS PRAZERES de Clarice Lispector - páginas 71 e 72
"ÉCOMUM SE DIZER QUE AS BARATAS sobreviveriam a desastres nucleareas. Isso deveria ter sido levado mais a sério. Não no sentido comumente explorado pelo cinema B, mas no sentido do profeta Kafka: a besta em nós não está em nosso passado, mas em nosso futuro. E o engano mais comum nessa matéria se dá pelo fato de que o aliado da condição de besta no humano é a sistematização da vida em busca da FELICIDADE PLENA.
Todo mundo já ouviu falar do livro Metamorfose de Kafka, o livro em que o personagem Gregor Samsa amanhece transformado num inseto e morre de depressão na janela. Aliás, janelas são lugares típicos onde morremos à espera de uma redenção que nunca chega. O próprio Kafka volta a essa imagem outras vezes em sua obra.
Um dos trechos inesquecíveis é quando a jovem barata passeia pela parede do quarto....
Ela parte da formação de qualquer amante da literatura. E mais: o importante na leitura de um livro como esse é como ele faz você ver a barata no seu espelho. Em Kafka, a literaura se realiza quando você vê a barata refletida no espelho. Ao final, a barata Samsa morre de tristeza na janela.
Mas voltando às paredes do quarto. Muitas vezes, em horas de agonia, contemplamos as paredes e o teto de nosso quarto, mergulhados no silêncio da solidão.
No trecho em questão, a jovem barata caminha pelas paredes e pelo teto, deixando uma espécie de gosma marrom produzida por suas infinitas perninhas. Essa mesma gosma a faz capaz de andar de lado e de cabeça para baixo, coisa que, quando humano, Gregor não conseguia fazer. Aí já vemos um dos ganhos de Gregor em virar uma barata.
No mundo melhor que desprezo, as baratas teriam uma passeata anual e direito a direitos humanos porque uma delas foi capaz de se emocionar ao experimentar a nova forma de liberdade presente em suas perninhas e sua gosma marrom.
Suspeitava Kafka, não sem nenhuma razão, que o darwinismo falava de nosso futuro e não de nosso passado. Uma barata feliz pode ser uma opção."
Do livro "Contra um mundo melhor: ensaios do afeto" pag. 46 - de Luiz Felipe Pondé - Editora LeYa
" Todos devem deixar algo para trás quando morrem, dizia meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos. Ou um jardim. Algo que sua mão tenha tocado de algum modo, para que sua alma tenha para onde ir quando você morrer. E quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali.
Não importa o que você faça, dizia ele, desde que você transforme alguma coisa, do jeito que era antes de você tocá-la, em algo que é como você depois que suas mãos passaram por ela. A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará lá durante uma vida inteira.
Certa vez, há cinquenta anos, meu avô me mostrou alguns filmes sobre os foguetes V-2. Você já viu alguma vez o cogumelo de uma bomba atômica, de uma altitude de trezentos mil metros? É uma cabeça de alfinete, não é nada. Com a imensidão ao redor.
Meu avô passou o filme do foguete V-2 umas dez vezes, e depois manifestou a esperança de que, algum dia, nossas cidades fossem mais espalhadas, deixando mais espaço para o verde, a terra e o campo, para lembrar às pessoas que nos cabia um pequeno espaço na terra, e que sobrevivemos nessa vastidão que pode tomar de volta o que ela deu com a mesma facilidade com que sopra seu hálito sobre nós ou envia o mar para nos dizer que não somos tão grandes assim.
Quando nos esquecermos quanto a natureza está próxima na noite, dizia meu avô, algum dia ela vai entrar e nos pegar, pois teremos esquecido quão terrível e real ela pode ser. Percebe?
Faz muitos anos que meu avô morreu, mas se você levantasse a tampa de meu crânio, por Deus, você encontraria, nas circunvoluções de meu cérebro, as marcas profundas de seus polegares. Ele me tocou.
José Resende. Homem ao Horizonte Longíquo. 1967
Como eu já disse, ele era escultor. "Odeio um romano chamado Status Quo!", disse-me ele. "Encha seus olhos de admiração", dizia ele, "viva como se fosse cair morto daqui a dez segundos. Veja o mundo.
E se houvesse, seria parente do grande bicho-preguiça pendurando de cabeça para baixo numa árvore o dia inteiro, todos os dias, a vida inteira dormindo. "Para o inferno com isso", dizia ele, "balance a árvore e derrube o grande bicho-preguiça de bunda no chão."
Hélio Oiticica, Seja Marginal, Seja Herói,1968. Presta homenagem a Cara de Cavalo e a Mineirinho, dois bandidos violentamente mortos pela polícia do Rio de Janeiro, confrontando as ideias convencionais de justo e errado, de exercício legítimo de poder e abuso autoritário.